Breve reflexão sobre o bom selvagem

Por volta de agosto passado, abordei, com alguns alunos, algumas questões relacionadas aos povos originários e à geopolítica mundial, mote sempre presente nas provas às quais estudávamos. Faço questão de observar que, sejam questões de linguagens, sejam de humanas, sempre presente está, também, a noção iluminista de natureza humana, em especial, a visão que Rousseau nos legou sobre o “bom selvagem”. Embora essa ilusão esteja – imagino – finalmente caindo em desuso, é notável em nossos estudos uma outra característica, essa, desenvolvida em especial na contemporaneidade: o conflito tem sido motor primário das relações humanas.

Quando Rousseau propõe que o homem nasce bom e é a sociedade que o corrompe, ele parte da premissa de que a vida antes da sociedade era plenamente agradável, que os homens viviam em profunda harmonia e que o meio do mato era um mar de rosas. A justificativa para tanto não passa de uma falácia relativista e típica de um iluminista1. Desconsiderando quase dois mil anos de produção filosófica, Rousseau sugere que valores universais – como a justiça – existem apenas mediante a plena evolução intelectual, que só se dá em meios civilizados, como os dele. Dessa forma, os tais “selvagens” não sabem o que é certo ou errado, justo ou injusto. São apenas pessoas ingênuas que assim viviam, ajudando-se mutuamente, livres de toda e qualquer hostilidade. Celebravam, enfim, a liberdade, a fraternidade e a igualdade.

E quando é que tudo isso se perde? Com o advento da civilização, que traz consigo todos os males da propriedade privada e nutre os indivíduos daquilo que Rousseau supunha não existir antes: a desigualdade social – daí que o homem nasce bom e é a sociedade que o corrompe. Com a precisão de um orangotango coordenando uma cirurgia cardíaca, o grande filósofo contratualista afirma que, em algum momento, por alguma razão, um punhado de homens se julgou digno de tornar todo resto da sociedade a eles submissos. A partir desse momento, as coisas teriam desandado. Os homens tornaram legítimas coisas ilegítimas, passaram a se matar e a julgar as ações uns dos outros e nunca mais veríamos os valores da Revolução Francesa novamente.

O ponto que merece nossa atenção é: mesmo Rousseau, submerso em seu próprio oceano de inépcia, pôde perceber a força oculta que rege absolutamente todas as coisas: a vontade de potência, conceito apresentado e desenvolvido por Friedrich Nietzsche, em certa contraproposta a Schopenhauer. Invariavelmente, tudo que existe busca afirmar a sua própria existência expandindo-a para além de si mesmo. Explico. Para Nietzsche, o Universo possui vontade de potência quando se expande cada vez mais; um cão também possui vontade, que é expressa quando ele marca território; um casal de leões, quando copulam, expandem sua existência por meio da prole e por aí vai. Quando eu me formo no Ensino Médio, vou para a faculdade, sigo para a pós graduação, escrevo livros, aprendo outros idiomas, também estou demonstrando, mesmo que inconscientemente, essa vontade, afirmando o meu poder intelectual.

Acontece que tudo que há busca a afirmação de sua vontade. Eventualmente, é necessária força para tanto. Esse é o aspecto primordial das relações interpessoais, como se pode ver com outro leitor de Schopenhauer, Machado de Assis, em seu livro Quincas Borba. O que Borba entende como Humanitismo, Nietzsche entende como expressão máxima da vontade de potência entre os homens. Eu não quero apenas ter filhos, quero mostrar aos outros rapazes que eu pude afirmar a minha vontade e me expandir. O europeu moderno não queria conquistar os mares, queria afirmar sua existência impondo aos povos os seus interesses.

A isso se resume as ações humanas e disso deriva o caos que Rousseau não pôde explicar. A todo instante, todos os homens buscam afirmar sua vontade. A todo instante, buscam se expandir, seja concebendo uma prole, seja destruindo a alheia. Hobbes acertadamente disse, anos antes de Rousseau: o homem é o lobo do homem. Não apenas por ser mau por natureza, não apenas por ser essencialmente caótico. Mas por ser, acima de tudo, irracional. Como um macaco cego que carrega, em suas costas, outro macaco, aleijado, mas que enxerga.

1Além da questão que desenvolvo, há o problema de Rousseau supor uma sociedade antes dela mesma, uma petição de princípio. Comento com os alunos que, a partir da Idade Moderna e pensando no vestibular, nós não nos atentamos à ilogicidade da abordagem proposta, apenas à estrutura apresentada.


Barueri, 27/08/2022

Revisado em 25/01/2025


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