Embora Arthur Schopenhauer seja um de meus filósofos mais queridos, seus erros, tais como seus acertos, costumam ser de magnitude sem igual. Dos erros mais absurdos, posso citar a admiração e o louvor que ele devia a George Berkeley, alguém cujas ideias não devem ser levadas a sério por ninguém que se dê o trabalho de pensar. Ainda assim, apontar, entre amigos, alguns dos problemas do pensamento de Berkeley me propiciou breve reflexão acerca da viagem no tempo como uma impossibilidade não só física como, também, filosófica.
Um objeto sensível só pode ser percebido em circunstâncias apropriadas. Não posso ver Lion-O, meu gato, se estivermos em um quarto escuro. Também não posso vê-lo se ele estiver atrás de mim. Mais ainda: meu gato é composto por órgãos que estão ali, nele presentes, em pleno funcionamento, e o máximo que posso perceber do bichano é sua aparência externa. Perceber um objeto também implica a manifestação de disposições compossíveis. Quando vejo o gato acordado, não o vejo dormindo; quando o vejo aqui, não o vejo acolá.
Imaginemos o gato acordado. Está nele as disposições físicas futuras, em número quase infinito (ele pode continuar aqui ou sair, ficar de pé ou deitado, pode dormir ou continuar acordado etc), e as disposições que ele já manifestou (sejam potências que foram atualizadas ou possibilidades aniquiladas1). Podemos apreender as disposições físicas dos objetos, da realidade na qual nos inserimos e de nós mesmos, mas continuemos a usar o gato apenas.
Quando se percebe2 o gato, apreende-se também todo seu círculo de latência, embora se possa não saber nomear certos aspectos ou não os perceber integralmente (ao ver o lado direito do gato, não se vê seu lado esquerdo, embora a presença integral das partes do objeto sejam inseparáveis da manifestação física do todo, assim como a possibilidade de o gato estar aqui deu-se, outrora, da mesma forma dele estar acolá). Apreensão não é percepção. Só se percebe o que é sensível, mas se apreende mesmo as características suprassensíveis. Uma delas, como já se pôde deduzir, é o passado do objeto.
Para que víssemos o gato, uma série incontável de eventos precisou ter acontecido, desde a concepção do universo até a manifestação física e atual do gato. Todos esses eventos, como comentei, são apreendidos pela sujeito3 na presença do objeto e passam a integrar o que o sujeito é (nós somos, agora, alguém que viu o gato ali).
Para entender o absurdo que seria uma viagem ao passado, vamos imaginar que você pôde realizar tal façanha e viajou para 1822, quando o gato já apreendido existia apenas enquanto uma potência (dentre N outras). Ora, assumimos que o gato foi apreendido (portanto, ele houve em ato), mas agora, ele é, em 1822, só uma potência. Isso quer dizer que uma coisa aconteceu e “desaconteceu”, algo ilógico e irreal, dado que, uma vez que algo acontece (uma potência se atualiza), para sempre terá acontecido.
Estendamos esse argumento a cada objeto que você apreendeu ao longo da sua vida, mas que, naturalmente, davam-se todos como mera possibilidade de manifestação em 1822. Seria possível haver, naquele ano, algo cuja existência se daria frente a uma série de fenômenos jamais manifestados? Como um objeto poderia existir numa realidade em que as condições para sua existência são, quase todas, virtuais? A única forma de assumir essas colocações seria se deslocar da realidade sensível e assumir uma consciência que contenha, em si, a eternidade. É dizer-se Deus.
Ademais, se se voltasse no tempo, perceber-se-ia o tempo a passar da mesma maneira. Então, o sujeito estaria em direção4 ao futuro, não ao passado, dado que voltar no tempo corresponde a se colocar num momento em que o sujeito ainda não haveria apreendido tudo aquilo que já lhe fora apreendido. Percebamos que a argumentação se complica cada vez mais – e tratávamos só do gato.
Quanto a uma viagem ao futuro, sequer preciso argumentar muito. Você apreendeu o gato e, logo em seguida, embarcou na espaçonave na vã esperança de ir a algum momento no futuro. Bom, da mesma forma que o tempo passa a você, passa ao gato, quero dizer, embora você e o gato percebam o tempo de modo distinto, o tempo passa a ambos da mesma maneira: se há dez minutos você viu o gato, há dez minutos o gato passou a ser um objeto apreendido por alguém. Ao contrário do que muito se supõe na ciência contemporânea, o tempo não é relativo.
Por mais que você, em sua espaçonave, rode em torno da Terra quase na velocidade da luz, o tempo que passa a você é o mesmo que passa ao gato. Ambos “viajaram” para o futuro. Você pode ter a impressão de que o tempo passou mais depressa, mas é a mesma impressão do aluno a quem a aula de matemática tarda a terminar, mas a de educação física é quase que instantânea – tendo, ambas, cinquenta minutos de duração. Insisto, noutras palavras: percepção é relativa, tempo é absoluto.
1O gato está aqui porque pôde sair de um lugar e vir para cá, mas, antes de vir, ele tinha como potência vir aqui ou ir acolá. Atualizou uma dessas potências, aniquilou a outra e, para sempre, terá existido a potência aniquilada. Essa informação passa a compor e distinguir o objeto (esse é o gato que veio aqui, quando poderia ter ido acolá).
2Uso “percepção” para tratar da apreensão sensível imediata (perceber é sentir) e “apreensão” para tratar da intelecção (apreender é inteligir).
3Não necessariamente se sabe quais foram esses eventos, mas eles são inegáveis. Para que o gato esteja aqui, é necessário que ele tenha nascido. Para que ele tenha nascido, é necessário um casal de gatos anteriores e por aí vai, até chegar no instante em que, para que toda essa cadeia de eventos se sucedesse, é necessário que ela tenha existido enquanto possibilidade (só se atualiza o que fora, uma vez, potência). Tudo isso compõe o objeto (ou seu círculo de latência, caso queiramos distinguir a característica do objeto do objeto em si) e é apreendido de forma imediata, mesmo que não enunciado.
4Ir em direção, naturalmente, diz respeito ao espaço, não ao tempo. Uso-o por falta de termos melhores. Percebamos que mesmo a linguagem não abarca noções tão absurdas quanto o deslocamento de um objeto físico (portanto, espacial) no tempo.
Barueri, 15/07/2023
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