Em defesa do preconceito (pt. 2)

Preconceito na sociedade

A pessoa supostamente livre de preconceitos busca a todo momento quebrar tabus, mas acaba por agir em conformidade com aquilo que vê a sua volta e conforme o que pensa ser esperado dela. Uma mãe solteira adolescente, por exemplo, pode sem problemas apelar para o argumento de que ela é um indivíduo, não só um membro de uma classe de pessoas. As adolescentes entrevistadas são veementemente contrárias ao aborto, ainda que as crianças filhas de mães nas condições supracitadas estejam muito mais propensas a “cair na delinquência ou na vida criminosa, consumir drogas ou se tornar alcoólatras, afastar-se dos estudos e viver desempregadas, sofrer severos problemas psicológicos” (pp. 48, 49) e assim por diante.

A decisão de ter um bebê sendo adolescente e estando solteira cabe a essa adolescente, mas as consequências disso se devem ao insuficiente amparo social, ao preconceito das elites contra mães solteiras adolescentes, à péssima educação pública fornecida, enfim, o fracasso de se ter um filho ilegítimo e lhe imputar as mesmas condições de miséria na qual a mãe se encontra é culpa da sociedade como um todo, graças a autoridade que supostamente coube à adolescente no momento em que decidiu ser mãe.

Enfim, os “transgressores habituais das fronteiras não se opõem a qualquer fronteira em particular, mas à existência de fronteiras enquanto tais” (p. 54), quer dizer, o homem que se diz livre de preconceitos se prende ao preconceito contra o preconceito (“o desejo de se furtar a uma convenção é, em si mesmo, uma convenção” – p. 54).

Crítica a Stuart Mill

Mill supervalorizava o papel que a razão exerceria sobre a vida cotidiana e atacava fortemente o preconceito. Para ele, o indivíduo decidiria sozinho se deve ou não se conformar às convenções sociais. Mas “mesmo o mais insignificante dos atos pode exercer certo impacto ou ter consequências sobre terceiros” (p. 59), de acordo com Dalrymple. Embora não seja um apologista do egoísmo, Mill proporciona amplas bases para tal.

Também para ele, as respostas a questionamentos morais e empíricos são sempre temporárias e suscetíveis de revisão, a verdade surge apenas ao se confrontar opiniões diversas, de modo que, ao se suprimir a falsa, não se alcance a verdadeira. Levando para o âmbito científico, sempre será preciso escolher entre linhas de pesquisa concorrentes, o que faz com que nem toda falsidade seja valiosa para se encontrar a verdade. “O sábio questiona apenas aquelas coisas que merecem questionamento” (p. 63).

Como consequência da teoria de Mill, temos a problemática do termo “válido”. “Não são mais os argumentos que são válidos, no sentido de serem elaborados segundo regras da lógica e da evidência, mas as opiniões e mesmo as questões como um todo” (p. 64). Em outras palavras, todos enunciados que respondem a algo são temporários e suscetíveis a dúvidas, de forma que todos os fatos e opiniões são enunciados. Se ambos são iguais no que tange ao conflito entre falso e verdadeiro, por que uma opinião não poderia ser tão válida quanto um fato concreto?

Pois bem, costume, para Mill, é um mal que constitui o princípio de obstrução para o progresso e desenvolvimento moral. O homem que ridiculariza costumes, então, é o arauto da evolução humana. Dessa maneira, “seria uma coisa excelente para os alemães médios abrir mão de seu preconceito contra a desordem nas ruas [um costume que preza pela ordem], e então começar a atacar indivíduos e destruir a propriedade alheia, a fim de seguir aquele sujeito solitário, excêntrico e indubitavelmente original chamado Adolf Hitler” (p. 73).

Preconceito e direito

À medida que costumes proibitórios são destruídos por uma crítica corrosiva como essa, novas proibições irão surgir para preencher o vácuo gerado. Com isso, tudo o que não é proibido se torna um direito, “pois obviamente a pessoa terá o direito de fazer aquilo que ninguém tem o direito de proibir” (p. 82), o que resulta, por conseguinte, em novos direitos descobertos dia após dia.

De acordo com Dalrymple, os direitos podem se expandir por dois meios. O primeiro diz respeito a quando um direito negativo se torna positivo, por exemplo, o direito de “uma mulher ter uma criança, no sentido de ninguém poder preveni-la caso ela assim deseje, transforma-se em direito de possuir uma criança de fato, mesmo à custa dos contribuintes e da sociedade” (p. 83). Nesse caso, a infertilidade seria uma violação dos direitos da pessoa e não mais uma infelicidade fisiológica. Tão logo, meios técnicos cada vez mais caros e cujo sucesso se dá em poucos casos se tornam um direito.

O segundo meio pelo qual os direitos se expandem “é a negação da reciprocidade limitadora”, a ideia de que um direito só é genuíno se for incondicional. Se eu tenho o direito de ouvir música a hora que eu quiser, julgar errado ouvi-la de madrugada na intensidade que eu quiser é uma violação do meu direito; ou eu tenho esse direito ou não tenho.

Tudo aquilo que por lei não é proibido é permitido e, dessa forma, será também moralmente permissível. Mas “aquilo que começa como busca por um individualismo ampliado […] termina com o aumento do poder do governo sobre os indivíduos” (p. 86). O radicalismo individual não só é compatível com a centralização radical como também é produto dela. “Um poder infinito passará a pensar si mesmo como infinitamente bom, já que se torna infinitamente responsável pelo bem-estar de seus súditos (os quais, obviamente, tornar-se-ão objetos de suas intervenções)” (pp. 86 – 87).

Acontece que querer ter direito a tudo e simultaneamente é tanto uma impossibilidade humana quanto conduzirá o agente e a sociedade ao desastre. Apenas o preconceito e as pressões sociais podem evidenciar isso. “É do preconceito social que aprendemos a desenvolver virtude social. O pensamento metafísico e a reflexão chegam depois” (p. 96).

Preconceito e moral

Bem como os animais, é preciso que o homem nasça com preconceitos de facto, mas que não se manifestam na forma de proposições. De acordo com Adam Smith, todo e qualquer homem partilha do sentimento de empatia. Aquilo que recebeu o nome de insanidade moral, psicopatia, sociopatia, desordem antissocial de personalidade etc., nada mais é senão “uma condição na qual uma pessoa parece carecer fundamentalmente de qualquer empatia pelas outras, que Smith declara ser universal” (p. 100), ou seja, uma ausência de preconceito, o que, enfim, demonstra que a moral não é um fenômeno metafísico ou sobrenatural, mas próprio do homem.

Mesmo que o se nasça com preconceitos, predisposições ou propensões, sua vida não está predeterminada, uma vez que se pode lidar com essas noções das mais variadas maneiras. A noção hidráulica da emoção humana, no entanto, acredita que o ser humano não nasce com tais pressuposições, mas com uma quantidade fixa de sentimentos, que precisam, de uma forma ou de outra, ser expressa, para que o indivíduo não imploda ou exploda. Essa noção, no entanto, “ignora o efeito do hábito não apenas na exteriorização das emoções, mas na experiência real da emoção” (p. 101). Uma pessoa que expõe sua raiva de forma desinibida tão logo sentirá raiva por qualquer coisa. Quem defende a noção hidráulica acreditará, por exemplo, que a violência exibida em jogos e filmes acarretaria um efeito catártico naquele que tem em si altos níveis de violência, o que, em seguida, indicaria um declínio na violência real. Mas o que acontece é exatamente o oposto. Pessoas adultas e completamente maduras não se tornam mais ou menos violentas por assistirem a cenas violentas, mas “os que a veem desde pequenos estarão mais propensos a contraírem comportamento violento daqueles que não veem” (p. 102).

Preconceito e desigualdade

Para os racionalistas, as pessoas nascem iguais e devem ser tratadas igualmente, de forma que isso resulte também em igualdade de resultados, mas a única forma de garantir que um milionário e um pobretão sejam tratados de modo plenamente igual é “assegurar que não haja mais milionários e pobretões” (p. 104). Segundo Dalrymple, há uma tendência estatística que nos mostra, mesmo em sociedades mais modernas, que comumente as pessoas terminam não tão longe do nível hierárquico sob qual nasceram. Embora os racionalistas talvez neguem sua exigência por uma igualdade de resultados, lhes é difícil apresentar um grau de desigualdade minimamente aceitável por eles, por isso, impõem seus esforços sobre estudos que examinam a desigualdade, qualquer que seja, e tomam qualquer aumento nesse índice como argumento irrefutável de que se cometeu uma injustiça.

Uma solução para a desigualdade de renda seria elevar os pobres para o padrão dos ricos, ainda que, na prática, isso corresponda a expropriar os ricos por meio de impostos cada vez mais severos; “o ódio aos ricos é uma emoção muito mais forte que o amor aos pobres” (p. 105). Para que não haja desigualdade de oportunidades, o necessário seria, então, a eliminação do preconceito (provando que todos são iguais do nascimento à morte).

Mas há um detalhe por trás da manutenção da igualdade de oportunidades: ela provém do totalitarismo. “É uma questão em aberto saber se, por trás do anseio por igualdade, esconde-se o anseio por poder. […] Sempre que o anseio se expressa de maneira intransigente, os horrores mais atrozes advirão” (p. 106).

É admirável o fato de que o homem pode refletir sobre seus preconceitos e estar apto a fazer mudanças. Enquanto alguns que se deparam com a violência doméstica durante a infância apresentam, na idade adulta, comportamento igualmente violento, outros se abstém por horror a mesma forma de violência. Só por esse exemplo, já se pode considerar um erro grotesco eleger o aspecto material ou econômico como o de maior importância no que tange ao ambiente no qual a criança nasce. Embora a pobreza material seja uma grande privação, ela não é fator preponderante sobre a instabilidade emocional ou a imoralidade de alguns indivíduos. Perguntar de onde vem a pobreza em vez de estudar a causa da riqueza infere a ideia de que a pobreza é causada pela riqueza.

Mas a riqueza não pode se apoiar na pobreza, e sim, naquilo que ela produz, ainda que seja o pior sistema de exploração já imaginado; “mesmo a riqueza extraída do trabalho escravo é derivada de uma fundação de ideias, não apenas a respeito da aceitabilidade social do trabalho escravo, mas em relação a como e quais serão os bens produzidos” (p. 108). Tomando o exemplo de Dalrymple: numa cidade britânica em que trabalhou, os descendentes de sikhs e hindus enriqueciam mais rapidamente que os brancos pobres, que estagnavam.

Os filhos de sikhs e de hindus possuíam ainda um forte preconceito coletivo favorável a família (algo que já estava há muito sob ataque ideológico no Ocidente). Essa forte ligação familiar aliada às crenças do valor da educação e do esforço, em uma sociedade suficientemente aberta, aumenta as chances de triunfo sobre os obstáculos encontrados, como o preconceito de terceiros ou mesmo os problemas econômicos na cidade em questão. Aqui, temos um claro exemplo de preconceito bem direcionado; “uma vez que uma crença tão valiosa seja tida mais em conta por certos grupos do que por outros, é provável que se trate mais de um preconceito do que de uma opinião profundamente refletida, baseada num exame cuidadoso das evidências” (p. 110).

Na contramão desse raciocínio, ainda no mesmo exemplo dado pelo autor, temos os brancos pobres que partilhavam de um preconceito diferente: a sociedade seria tão injusta para com eles que nada que fizessem poderia promovê-los para cima na escala social ou sequer melhorar suas condições. É possível, para quem acredita na injustiça social, apontar uma série de casos de méritos que jamais foram recompensados, ao passo que, para quem defende o valor do esforço pessoal, é igualmente possível apontar casos de triunfos mesmo diante de situações precárias. “É a visão de mundo que determina a escolha das evidências, não o oposto” (p. 111).

É necessário observar, por fim, que a única forma de se promover totalmente a igualdade de oportunidades é evitar que as crianças cresçam com preconceitos diferentes. Como é impossível instilar a ausência total de preconceitos no indivíduo, caberia aqui não eliminar, mas estimular os preconceitos certos em todos. Para tanto, seria necessário a ditadura totalitária mais pormenorizada que já houve, garantindo a mais absoluta igualdade de resultados, sem distinção alguma; uma sociedade tão livre de preconceitos que os pais já não precisariam se preocupar com o bem estar de seus filhos ou de quem seja, o que desencadearia, segundo Dalrymple, “um horror que está além dos poderes de descrição. O preconceito é necessário para a manutenção da mais elementar decência” (p. 111).

Preconceito e revolução sexual

A violência doméstica contra mulheres é um fator constante na história. O motivo mais comum apontado por Dalrymple é o ciúme sexual. Em uma sociedade cuja relação entre os sexos foi colapsada, a violência motivada por ciúme cresceu drasticamente. Intelectuais frustrados com sua existência promoveram a ideia de que, ao se livrar das obrigações sociais, costumes, condições econômicas, senso de dever e qualquer outro fator supostamente externo, as relações entre os sexos se daria exclusivamente pela atração mútua que, caso acabasse, seriam racionalmente dissolvidas, sem que nenhuma das partes recriminasse a outra. Essa ideia irrealista e covarde provou que é “muito mais fácil remover as restrições sexuais do que superar o desejo de cada indivíduo pela exclusiva possessão sexual do outro” (p. 122).

Isso não quer dizer que não haviam irregularidades sexuais – como a literatura bem as torna visíveis – mas que elas deveriam ser vividas na maior discrição possível. A revolução sexual inverteu essa situação. Condenando e expulsando a hipocrisia, a dissimulação e o comportamento furtivo, agora a honestidade e autenticidade são um valor em si mesmas.

O problema subsequente a isso fomentou a predação sexual e a obsessão pela fidelidade do parceiro ou parceira sexual. Uma vez que tendemos a imaginar que a pessoa ao nosso lado não é tão diferente de nós mesmos, se sou sexualmente predatório, minha parceira também o é, pois essa tendência estimula a crença de que esse tipo de comportamento é a regra.

A violência doméstica, embora por vezes fruto de um pensamento inconsciente, apresenta todo um desenlace de uma política consideravelmente analisada. A questão posta é a seguinte: como um homem que viva em um ambiente sexualmente promíscuo pode assegurar a fidelidade sexual de sua parceira a não ser com argolas de ferro? Pois bem, ele então se assegura de que sua mulher estará desde logo cedo pensando nele (e não em outro homem). Ele também lhe nega contato com outras pessoas, mesmo que sejam membros de sua família, e faz com que ela se sinta sob constante vigilância, telefonando-lhe e exigindo pontualidade nos mínimos períodos em que ela pode sair. Também é conveniente a esse homem, destruir a imagem de sua companheira, de modo a fazer com que ela se sinta abençoada por um homem tão especial e único como ele ser capaz de desconsiderar os tantos defeitos dela. Se nada disso funcionar, por fim, teremos a violência física.

A violência nesse caso, para que surta efeito máximo, precisa ser – ou pelo menos parecer – arbitrária. Dessa forma, a vítima perderá seu tempo buscando razões que justifiquem a agressão ou como ela pode ser evitada, ou seja, a mulher estará ocupada pensando em seu parceiro; seu objetivo foi alcançado. E ainda assim, se essa mulher encontrar alguma conclusão que julgue lógica nisso, será a ideia de que há algo errado no homem, mas que ele é doente e, portanto, precisa receber cuidados, não ser maltratado. “Como dizem geralmente as vítimas, ‘Acho que ele precisa de ajuda, doutor’” (p.124).

Dalrymple expõe que um homem que agride sua companheira raramente esconde sua conduta, por vezes até promove sua reputação. Analisando o caso de um homem que esfaqueou sua companheira, o autor observou que a vítima, antes de sair com seu algoz, já ouvira coisas ruins a respeito dele (um criminoso violento, bêbado, drogado e com histórico de bater em mulheres), mas o aceitou mesmo assim.

É comum que o agressor se diga aflito e arrependido pelo seu comportamento, que não voltará a ser violento ou que irá buscar ajuda médica para “tratar de sua violência” (sic.), como se o agressor fosse a vítima. Mas se tudo isso é sabido, se mesmo a reputação desses crápulas os precede, por qual razão algumas mulheres não notam o perigo de se envolver com tais tipos? “A resposta oferecida por muitas dessas mulheres é que não seria justo tirar conclusões apressadas, julgar contrariamente, estigmatizar ou estereotipar” (p. 125), elas aceitaram o preconceito contra um preconceito que “poderia tê-las poupado de espancamentos e, por vezes, da morte” (p. 126).

Conclusão

Ainda que não haja nenhum princípio metafísico, o julgamento é inevitável, logo, o preconceito é necessário e conveniente. Mesmo aqueles que dizem não julgar agem assim porque julgam que devem proceder dessa forma. O termo “julgamento” tornou-se psicologicamente sinônimo de intolerância e censura, qualidades que não se apresentam como atraentes. Na prática, não se pode viver sem julgamentos estéticos ou morais da mesma forma que não se pode extinguir a linguagem ou um sentido de tempo; “nenhum sistema de proposições éticas, ou mesmo nenhum outro sistema de proposições, pode existir sem pressuposições, isto é, sem preconceitos” (p. 134).

Seguindo um raciocínio lógico, se todo preconceito é ruim e a distinção entre o bem e o mal só pode se basear em preconceitos, distinguir bem e mal seria algo ruim. Em contrapartida, se distinguir o bem e o mal é inevitável e necessário para o exercício da virtude e tal distinção se baseia em preconceitos, os preconceitos são inevitáveis e necessários para o exercício da virtude. “É preciso ter capacidade de discernimento para saber quando um preconceito deve ser mantido e quando deve ser abandonado […]. Eles [os preconceitos] são aquilo que dão caráter às pessoas, mantendo-as juntas. Não podemos viver sem eles” (p. 138).

Link para a parte 1


DALRYMPLE, T. Em Defesa do Preconceito: A necessidade de ter ideias preconcebidas. 1ª edição. São Paulo: É Realizações, 2015.


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